quinta-feira, novembro 25, 2004

Tipificação

Hoje saí de casa um pouco mais calmo, mas carregado como de costume com miúdos para levar à escola, boleia da minha mulher até à estação do comboio.
Carrego comigo um livro de Camilo José Cela, abro-o pela primeira vez e logo concluo que não é um livro para se ler num comboio.
A carruagem vai se enchendo a cada estação que para.
Continuo a ler o meu livro, abstraio-me do que me rodeia.
Guardo o livro e saio na estação de Sete Rios – porquê este nome?
Caminho como um autómato, como todos aqueles que invadiram a grande estação de Metro. Reparo que as mulheres estão vestidas todas, ou quase todas, da mesma forma, com as calças a tornear, a moldar, a aconchegar nádegas redondas, umas um pouco mais que outras, mas, mesmo assim, muito semelhantes. A grande maioria tem o cabelo castanho claro, quase loiro, a maior parte pintado, maquilhagem ligeira, peitos apertados um contra o outro, de forma a salientar a sua voluptuosidade, mesmo quando são pequenos – temos de ser atraentes, mesmo quando não o somos.
Entro no Metro, apertado, encosto-me à porta contrária à que entrei, desta vez não abro o meu livro, não é, definitivamente, um livro para se ler no comboio, muito menos no Metro.
Começa novamente a dança da entrada e saída de pessoas, todos iguais, ao mesmo ritmo, frenético, continuam a entrar e a sair meninas de rabos iguais e de mamas salientes, tenho a sensação que vão todos para o mesmo sítio, que trabalham todos na mesma empresa, e que já saem fardados de casa.
Entram dois homens, de tenra idade, de olhos claros e não se percebe absolutamente nada do que dizem, têm aspecto de namorados – passa uma velha a pedir uma ajudinha para comer, ao fim de 87 anos arranjou uma colocação numa empresa de esmolas – carta postal para os homens de olhos azuis comentarem, não sei o que dialogavam, mas tenho a certeza que era sobre este infeliz cenário português.
Marquês de Pombal, aqui o fluxo de gente tipificada é maior.
Restauradores, abandono o Metro e dirijo-me a uma pequena cafetaria, onde, após esperar três ou quatro minutos, lá consegui beber um café – sem açúcar, é a minha nova experiência. A seguir a mim, mais uns tantos gémeos.
Saída da estação mais dois cartões postais da cidade de Lisboa.
Estacionamento que fica perto da “antiga” estação do Rossio, onde as paredes estão pintadas de mijo – lá está o tipo que estaciona carros e fica com chave dos carros, o chaveiro.
Subo as escadinhas, passo pela GNR, Largo do Carmo, Misericórdia, Bairro Alto, merda de pombo por todo o lado, entro no edifício, subo as escadas, começo a dizer bom dia a todos com que me cruzo – ainda sou bem educado – entro na minha sala, já lá estavam os meus colegas – Bom dia pessoal.
Ligo o computador, discuto um pouco de futebol, política é raro conseguir discutir por aqui.
Vejo os meus mails.
Word, e começo a escrever estes apontamentos.
E é isto todos os dias – nem sempre escrevo, aliás já não escrevia há bem mais de um mês.
A tipificação da minha vida.
Está, definitivamente, na altura de mudar.